SII ou SIBO: Como Distinguir | Nutricionista Funcional
Atualizado: 31 de ago.
A síndrome do intestino irritável (SII) e o SIBO são quase indistinguíveis à primeira vista. Ambos provocam distensão abdominal, dor e uma digestão imprevisível. Muitas pessoas passam anos a tratar um quando, na realidade, têm o outro, e essa distinção é decisiva, porque tratá-los da mesma forma raramente resulta.
Explico aqui como diferenciá-los, como se diagnostica cada um, e porque o caminho terapêutico é completamente distinto.

O que é a SII?
A SII (síndrome do intestino irritável) é uma perturbação digestiva funcional, ou seja, a estrutura do intestino aparenta estar normal, mas o seu funcionamento está alterado. Estima-se que afete 10 a 15% dos adultos em todo o mundo, sendo um dos diagnósticos mais frequentes em gastrenterologia.
A SII é diagnosticada segundo os critérios de Roma IV: dor abdominal recorrente, pelo menos um dia por semana nos últimos três meses, associada a alteração da frequência ou da forma das fezes. É fundamental perceber que se trata de um diagnóstico de exclusão: só é confirmado depois de afastadas condições como a doença celíaca, a doença inflamatória intestinal e infeções.
Não existe um exame único para a SII. As suas causas são multifatoriais: disfunção do eixo intestino-cérebro, hipersensibilidade visceral (em que sensações intestinais normais são sentidas como dor), alteração da motilidade intestinal, disrupção do microbioma e, nalguns casos, antecedentes de infeção intestinal ou de stress significativo.
O que é o SIBO?
O SIBO (sobrecrescimento bacteriano do intestino delgado) é uma condição mensurável, e não um conjunto de sintomas. Ocorre quando bactérias que pertencem ao intestino grosso migram para o intestino delgado e o colonizam em número excessivo.
O intestino delgado deve conter relativamente poucas bactérias. Quando isso se altera, essas bactérias fermentam os hidratos de carbono antes de estes poderem ser devidamente absorvidos, produzindo gás e comprometendo a absorção de nutrientes, razão pela qual o SIBO cursa frequentemente com má absorção, para além dos sintomas digestivos.
O SIBO diagnostica-se com um teste respiratório que mede o hidrogénio e o metano. Apresenta-se em três tipos principais:
SIBO com predomínio de hidrogénio: associado a diarreia
SIBO com predomínio de metano (também designado sobrecrescimento de metanogénios intestinais, IMO): associado a obstipação
SIBO com predomínio de sulfureto de hidrogénio: associado a fezes moles e odor sulfuroso
Os sintomas sobrepõem-se, mas há pistas
Ambas as condições partilham um núcleo de sintomas: distensão abdominal, dor ou cólicas, gases e alteração do trânsito intestinal. Mas há padrões que apontam mais fortemente para SIBO:
Distensão que surge 30 a 90 minutos após comer: as bactérias fermentam os alimentos rapidamente no intestino delgado
Sintomas que agravam com alimentos "saudáveis": alimentos ricos em fibra, prebióticos, cebola, alho, leguminosas e fermentados alimentam as bactérias e amplificam as queixas
Névoa mental e fadiga: sobretudo no SIBO com predomínio de metano, em que os gases entram na circulação sistémica
Défices nutricionais: em especial de vitamina B12, ferro e vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K), por má absorção no intestino delgado
Agravamento dos sintomas com probióticos: acrescentar bactérias a um ambiente já em sobrecrescimento pode intensificar a fermentação
A SII, pelo contrário, está mais associada ao stress, ao estado emocional e à regulação do sistema nervoso. Os sintomas oscilam bastante com fatores psicológicos e não costumam originar défices nutricionais.
A ligação decisiva: o SIBO pode estar por trás de muitos casos de SII
A investigação sugere que entre 30% e 85% das pessoas com diagnóstico de SII têm teste respiratório positivo para SIBO quando formalmente avaliadas. Isto não significa que toda a SII seja SIBO, significa que uma proporção significativa de pessoas a gerir um diagnóstico de SII pode ter um sobrecrescimento bacteriano a alimentar os sintomas.
Esta sobreposição tem consequências clínicas importantes. Muitas das recomendações habituais para a SII (aumentar a fibra alimentar, tomar suplementos prebióticos, acrescentar alimentos fermentados) agravam ativamente o SIBO, por alimentarem as bactérias. Se o SIBO é o problema de fundo, tratá-lo como SII não produz melhoria duradoura.
Como se avalia cada um
SII: não existe exame de diagnóstico definitivo. O diagnóstico é clínico, baseado nos critérios sintomáticos de Roma IV, depois de análises ao sangue (para excluir doença celíaca, disfunção tiroideia e marcadores inflamatórios), análises às fezes e, nalguns casos, colonoscopia terem excluído outras causas.
SIBO: o teste respiratório de hidrogénio e metano é o método de diagnóstico padrão. Faz-se um jejum de 12 a 24 horas, bebe-se uma solução de lactulose ou glicose e sopra-se para tubos em intervalos cronometrados, ao longo de 2 a 3 horas. A subida do hidrogénio indica fermentação bacteriana no intestino delgado; a subida do metano indica arqueias produtoras de metano (IMO). Os resultados são interpretados em conjunto com o quadro clínico.
Tratamento: porque são completamente diferentes
É aqui que a distinção mais pesa.
O tratamento da SII foca-se em:
Protocolo alimentar baixo em FODMAP: eliminação e reintrodução estruturadas de hidratos de carbono fermentáveis
Intervenção no eixo intestino-cérebro: gestão do stress, regulação do sistema nervoso, hipnoterapia dirigida ao intestino
Estirpes probióticas específicas: espécies de Lactobacillus e Bifidobacterium escolhidas em função do padrão de sintomas
Fibra solúvel e suporte à motilidade: psílio, magnésio
Correção de fatores de estilo de vida: qualidade do sono, carga de stress, sensibilidades alimentares
O tratamento do SIBO exige um protocolo faseado:
Fase antimicrobiana: erradicar o sobrecrescimento com antibiótico (rifaximina) ou antimicrobianos de origem vegetal (berberina, alicina, óleo de orégãos, neem). Os protocolos fitoterápicos duram habitualmente 4 a 8 semanas.
Suporte alimentar durante o tratamento: uma alimentação de baixa fermentação ou baixa em FODMAP, para reduzir o substrato bacteriano e aliviar os sintomas.
Procinéticos após o tratamento: o complexo motor migratório (CMM), a onda natural de limpeza do intestino, está frequentemente comprometido no SIBO. Os procinéticos ajudam a prevenir a recidiva.
Reconstrução do microbioma: reintrodução cuidadosa de probióticos e de alimentos prebióticos depois de resolvido o sobrecrescimento.
Resolução da causa de fundo: tratar o que permitiu o SIBO instalar-se: hipocloridria, motilidade comprometida, antecedentes de antibioterapia ou patologias subjacentes.
Importante: tomar probióticos ou aumentar a fibra antes de resolver o SIBO pode agravar os sintomas, por alimentar as bactérias já presentes.
Quando procurar acompanhamento especializado
Se tem sintomas digestivos há mais de 3 a 6 meses sem melhoria consistente, ou se as queixas agravam sistematicamente com fibra, prebióticos ou alimentos fermentados, vale a pena fazer uma avaliação formal de SIBO em conjunto com uma investigação das causas subjacentes.
Uma nutricionista funcional pode articular o teste respiratório, interpretar os resultados no contexto do quadro clínico completo e construir um protocolo dirigido às causas e não apenas aos sintomas. Seja SII, SIBO ou ambos, a abordagem tem de ser específica para o seu caso.
Perguntas frequentes
Qual é a principal diferença entre SII e SIBO?
A SII é uma perturbação funcional diagnosticada pelos sintomas; o SIBO é uma condição mensurável, confirmada por teste respiratório, em que há sobrecrescimento bacteriano no intestino delgado. Partilham sintomas, mas têm causas diferentes e exigem tratamentos diferentes.
É possível ter SII e SIBO ao mesmo tempo?
Sim. A investigação sugere que o SIBO pode estar na origem de 30 a 85% dos casos de SII. Muitas pessoas vivem com um diagnóstico de SII quando o SIBO é o verdadeiro motor dos sintomas. Tratar o SIBO melhora ou resolve, com frequência, as queixas digestivas antes atribuídas à SII.
Como se diagnostica o SIBO?
Com um teste respiratório de hidrogénio e metano. Após jejum, bebe-se uma solução de lactulose ou glicose e sopra-se para tubos em intervalos cronometrados, ao longo de 2 a 3 horas. A subida do hidrogénio ou do metano indica bactérias a fermentar o açúcar no intestino delgado.
Como se diagnostica a SII?
Pelos critérios de Roma IV: dor abdominal recorrente, pelo menos uma vez por semana nos últimos três meses, associada a alterações da frequência ou da forma das fezes, depois de excluídas condições como a doença celíaca, a doença inflamatória intestinal e infeções.
A dieta baixa em FODMAP serve para SII e para SIBO?
A restrição de FODMAP reduz os sintomas nas duas condições, por limitar os hidratos de carbono fermentáveis. No SIBO, porém, deve ser associada a um protocolo antimicrobiano: a alimentação, por si só, não erradica o sobrecrescimento bacteriano, e os sintomas costumam regressar quando os FODMAP são reintroduzidos.
O SIBO provoca névoa mental?
Sim. O metano e o hidrogénio produzidos pelas bactérias no intestino delgado podem entrar na circulação sistémica e afetar a função cognitiva. A névoa mental, a fadiga e as alterações de humor são frequentes no SIBO, sobretudo nos casos com predomínio de metano (IMO).
Que alimentos agravam o SIBO?
Alimentos ricos em FODMAP (cebola, alho, leguminosas, trigo), fibras prebióticas (inulina, FOS) e alimentos fermentados podem alimentar as bactérias do intestino delgado e agravar os sintomas durante um SIBO ativo. Paradoxalmente, comer muita fibra na presença de SIBO costuma amplificar a distensão abdominal.
Quando devo consultar uma nutricionista funcional por SII ou SIBO?
Se tem sintomas digestivos há mais de 3 a 6 meses, se as queixas agravam com alimentos saudáveis como fibra, prebióticos ou fermentados, ou se vive há anos com um diagnóstico de SII sem melhoria duradoura, vale a pena uma avaliação das causas subjacentes que inclua teste de SIBO.
Rita Soares é nutricionista funcional (Ordem dos Nutricionistas 2604N) e IFM Certified Practitioner, em Lisboa. Dedica-se à saúde intestinal, SIBO, hormonas e longevidade, acompanhando pacientes online e presencialmente em Lisboa, com uma abordagem às causas de fundo em condições digestivas e hormonais complexas.



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